Brasileiros perderam R$ 36,9 bilhões nas bets em 2025, ou R$ 1.464 por apostador
De cada R$ 100 depositados nas casas autorizadas, R$ 16,73 ficaram com elas; depois da proibição de setembro de 2026, o Pix para o setor caiu 91,7%.
Por Redação Carcará Editorial ·
Assista ao vídeono YouTubeOs apostadores brasileiros perderam R$ 36,9 bilhões nas casas de apostas autorizadas em 2025, o primeiro ano do mercado regulado. Dos R$ 220,6 bilhões depositados, R$ 183,7 bilhões voltaram em prêmios e bônus sacáveis, segundo dados do Ministério da Fazenda obtidos pela Folhapress via Lei de Acesso à Informação. Assim, de cada R$ 100 depositados, R$ 16,73 ficaram com as casas. Com 25,2 milhões de apostadores, a perda média foi de R$ 1.464 por pessoa, 96% do salário mínimo de 2025, de R$ 1.518.
O valor coincide com a receita bruta das casas registrada pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda: R$ 36,96 bilhões, o total apostado menos os prêmios pagos. Em 25 de setembro de 2026, a Medida Provisória 1.394 proibiu as bets no país, e o Pix para o setor despencou.
Quem apostava
A média esconde diferenças, porque houve quem ganhou e quem perdeu muito mais. Os dados que as próprias casas enviaram ao governo, porém, mostram o perfil de quem apostava. Quase metade dos apostadores, 45,4%, tinha até 30 anos. Os homens eram 68,3%, e um em cada quatro apostadores, 24,5%, tinha conta em quatro casas ou mais.
| Faixa etária | Apostadores em 2025 |
|---|---|
| Até 24 anos | 22,7% |
| 25 a 30 anos | 22,7% |
| 31 a 40 anos | 28,6% |
| 41 a 50 anos | 16,7% |
| 51 a 60 anos | 6,6% |
| 61 a 70 anos | 2,0% |
| Mais de 70 anos | 0,7% |
Antes da regulação, o Banco Central já havia medido o peso das apostas entre famílias de baixa renda. Em agosto de 2024, 5 milhões de pessoas de famílias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às bets por Pix, cerca de 21% do que o programa pagou naquele mês, segundo o Tribunal de Contas da União. Desde outubro de 2025, as casas autorizadas eram obrigadas a barrar os beneficiários do Bolsa Família e do BPC.
O que passa e o que fica
Uma confusão comum infla o tamanho do problema. A estimativa de que os brasileiros enviam de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões por mês às bets, atribuída ao Banco Central, mede o dinheiro que passa pelas casas, e não o que fica nelas. O próprio Banco Central afirma que esse fluxo estima o volume apostado e que a maior parte volta como prêmio. Além disso, o mesmo real pode ser apostado várias vezes.
A perda efetiva é bem menor. Em 2025, a receita bruta das casas ficou entre R$ 7,48 bilhões e R$ 10,59 bilhões por trimestre, o que dá cerca de R$ 3,1 bilhões por mês. Quem toma o fluxo de R$ 30 bilhões pela perda infla o problema em quase dez vezes.
| Trimestre de 2025 | Receita bruta das casas |
|---|---|
| 1º | R$ 7,48 bilhões |
| 2º | R$ 10,59 bilhões |
| 3º | R$ 9,81 bilhões |
| 4º | R$ 9,09 bilhões |
Quanto ficou com o Estado
A receita bruta não é lucro, já que dela ainda saem impostos, salários, publicidade e patrocínios. Em 2025, as bets autorizadas pagaram cerca de R$ 9,95 bilhões em tributos federais e destinações legais, segundo o balanço do Ministério da Fazenda, o equivalente a 26,9% do que os apostadores perderam. As licenças renderam mais R$ 2,5 bilhões em outorgas.
As destinações legais somaram R$ 4,53 bilhões, repartidos por lei entre várias áreas. A saúde, que atende quem adoece pelo jogo, recebeu R$ 45,8 milhões, 1% do total.
| Área | Destinação em 2025 |
|---|---|
| Esporte | R$ 1,63 bilhão |
| Turismo | R$ 1,27 bilhão |
| Segurança pública | R$ 614 milhões |
| Educação | R$ 460 milhões |
| Seguridade social | R$ 454 milhões |
| Saúde | R$ 45,8 milhões |
Ao mesmo tempo, muita gente pedia um freio. Até maio de 2026, mais de 574 mil pessoas usaram a plataforma de autoexclusão do governo, lançada em dezembro de 2025, para se bloquear em todas as casas autorizadas. Para 207 mil delas, o motivo principal foi a perda de controle sobre o jogo e o impacto na saúde mental.
A proibição
A MP 1.394, publicada em 25 de setembro de 2026, proibiu as apostas de quota fixa em eventos esportivos e em jogos online, além da publicidade do setor. Novos depósitos ficaram vetados no mesmo dia, os sites e aplicativos saíram do ar em 6 de outubro, e os saldos tiveram de ser devolvidos. As autorizações foram extintas 30 dias depois da publicação, sem devolução das outorgas.
Com a proibição, o Pix de pessoas para empresas do setor em que as bets se registram caiu de R$ 33,3 bilhões em agosto para R$ 25,1 bilhões em setembro e R$ 2,8 bilhões em outubro, uma queda de 91,7%, segundo as estatísticas do Pix do Banco Central. A série, contudo, inclui clubes, academias e outras empresas de artes, cultura, esporte e recreação. Ela também não alcança os sites ilegais, dos quais mais de 25 mil endereços tinham sido bloqueados até dezembro de 2025.
A proibição ainda não é definitiva, porque a MP precisa ser votada pelo Congresso Nacional. Em 6 de novembro, ela aguardava a instalação da comissão mista. A partir de 9 de novembro, a MP passa a trancar a pauta de votações, e o prazo inicial para votá-la vai até 23 de novembro, prorrogável por mais 60 dias.
Em 3 de novembro, uma decisão provisória do Tribunal Regional Federal da 3ª Região suspendeu os efeitos da MP apenas para a CDA Gaming, dona das marcas Casa de Apostas, Betsul e Jogo Online, que voltaram a operar. A Advocacia-Geral da União informou que vai recorrer, segundo o Poder360. No mesmo dia, o Supremo Tribunal Federal fez uma audiência pública sobre a MP, ainda sem decisão, segundo o iGaming Business Brasil.
Quem precisa de ajuda com apostas pode buscar atendimento gratuito no SUS pelo Meu SUS Digital, nas unidades básicas de saúde, nos CAPS ou pelo Disque Saúde 136, segundo o Ministério da Saúde.