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Economia

Juros da dívida pública somam R$ 1,2 trilhão em 12 meses e respondem por 95% do déficit

Só o governo federal gastou com juros, em 2025, uma vez e meia o que gastou com saúde, educação e Bolsa Família somados.

Por Redação Carcará Editorial ·

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A dívida pública brasileira custou R$ 1,205 trilhão só de juros nos 12 meses até setembro de 2026, o equivalente a R$ 3,3 bilhões por dia, segundo as Estatísticas Fiscais do Banco Central divulgadas em 29 de outubro. O valor corresponde a 8,99% do PIB e responde por 94,5% do déficit nominal do setor público, que chegou a R$ 1,275 trilhão, ou 9,51% do PIB. Sem os juros, o déficit seria de R$ 70,1 bilhões, 0,52% do PIB.

O Banco Central contabiliza esses juros por competência, isto é, pelo valor que a dívida acumula a cada mês, tenha sido pago ou não. A conta inclui o governo federal, os estados, os municípios e as estatais.

Mais que saúde, educação e Bolsa Família somados

Dentro do governo federal, os juros superam as principais políticas sociais. Em 2025, último ano fechado, o governo federal, com o INSS e sem o Banco Central, teve R$ 867,7 bilhões em juros, segundo as estatísticas fiscais de 30 de janeiro. No mesmo ano, o orçamento da União registrou R$ 238,6 bilhões empenhados em saúde e R$ 176 bilhões em educação, e o Bolsa Família pagou R$ 158,1 bilhões. Somadas, as três áreas custaram R$ 572,7 bilhões, e os juros foram 1,5 vez esse valor.

Entre as áreas do governo, só a Previdência Social custa mais que os juros. A comparação deixa de fora a função de encargos especiais, que reúne o próprio serviço da dívida e transferências a estados e municípios e não é uma área de política pública.

Despesa do governo federal em 2025 Valor
Previdência Social R$ 1.103,1 bilhões
Juros da dívida R$ 867,7 bilhões
Assistência Social R$ 290,7 bilhões
Saúde R$ 238,6 bilhões
Educação R$ 176,0 bilhões

Os juros seguem o critério de competência do Banco Central, e as demais áreas, as despesas empenhadas no orçamento.

Uma conta que cresce sozinha

Nos 12 meses até setembro de 2025, os juros do setor público somavam R$ 984,8 bilhões, 7,86% do PIB. Um ano depois, chegaram a 8,99% do PIB, o maior peso desde 2003, empatado com o pico de janeiro de 2016.

Como as contas do governo já fecham no vermelho antes dos juros, eles são pagos com dinheiro emprestado e viram dívida nova. De janeiro a setembro de 2026, a incorporação de juros elevou a dívida bruta do governo geral em 7,2 pontos percentuais do PIB, segundo as tabelas do Banco Central. As emissões líquidas acrescentaram 1,1 ponto, e o crescimento do PIB reduziu a relação em 3,9 pontos. Com isso, a dívida bruta passou de 78,7% do PIB em dezembro de 2025 para 82,9% em setembro, o equivalente a R$ 11,1 trilhões.

O efeito se agrava porque a dívida também cobra juros sobre juros. Nos 12 meses até setembro, a dívida bruta custou em média 13,03% ao ano, enquanto o PIB em reais cresceu 7%. Quando o juro médio supera o crescimento da economia, a dívida cresce mais que o PIB, mesmo que o governo deixe de gastar além do que arrecada.

Para quem vai o dinheiro

O juro não desaparece: vira renda de quem empresta ao governo. Em setembro, segundo o Relatório Mensal da Dívida do Tesouro Nacional, os títulos da dívida pública federal interna, um estoque de R$ 9,04 trilhões, estavam distribuídos assim:

Detentor dos títulos Participação
Instituições financeiras 31,3%
Fundos de investimento 22,9%
Previdência aberta, fechada e de servidores 22,4%
Não residentes 9,6%
Seguradoras 3,3%
Tesouro Direto 3,1%
Governo 2,6%
Outros 4,9%

Metade do orçamento vai para a dívida?

Circula a tese de que quase metade do orçamento federal vai para a dívida. A conta existe: em 2025, a União pagou R$ 2,1 trilhões em despesas com a dívida, 42,2% dos R$ 5,05 trilhões pagos. Esse total, porém, inclui R$ 1,42 trilhão de refinanciamento, isto é, o pagamento de títulos vencidos com o dinheiro de títulos novos. A rolagem troca uma dívida por outra e não tira recursos de outras áreas. O custo da dívida é o juro, que já é grande sem essa soma.

O peso da Selic

Pelo cálculo do Banco Central, cada ponto percentual da Selic, mantido por 12 meses, muda a dívida líquida do setor público em R$ 70,8 bilhões, 0,53% do PIB. Isso acontece porque 56,9% da dívida bruta acompanha a Selic, contadas as operações compromissadas do Banco Central.

A Selic estava em 15% até março e caiu para 13,75% depois de cinco cortes de 0,25 ponto. Pela aproximação linear da estimativa oficial, cada corte desse tamanho alivia cerca de R$ 17,7 bilhões em um ano. A distância entre a Selic e a inflação, que explica parte dessa conta, está na matéria sobre o juro real do Brasil.

Os números desta matéria são os de setembro de 2026, divulgados pelo Banco Central em 29 de outubro, antes da decisão do Copom de 4 de novembro.